Poucas palavras despertam tanta rejeição quanto
“preconceito”. Chamado de preconceituoso, alguém normalmente entende isso como
uma acusação ou uma ofensa grave. A palavra evoca discriminação, intolerância e
injustiça.
Contudo, antes de condená-la ou defendê-la, talvez seja útil perguntar: o que significa, afinal, preconceito?
Do ponto de vista histórico, a palavra remonta à ideia de um
juízo prévio, um julgamento formulado antes do exame completo da questão. Mas
há uma interpretação filosófica igualmente fecunda: preconceito como preconcepção
(pre+concepção = prae+conceptio). Antes de julgar, concebemos; antes de
concluir, antecipamos um sentido; antes de encontrar algo ou alguém, já
carregamos uma determinada compreensão.
É precisamente aí que surge o problema.
Grande parte da filosofia moderna, especialmente a partir do
Iluminismo, alimentou o ideal de uma razão capaz de libertar-se de todos os
preconceitos. O lema kantiano Sapere aude — “Ouse saber” — convidava o
indivíduo a abandonar a tutela da tradição e pensar por si mesmo.
Esse projeto representou uma conquista extraordinária.
Combateu superstições, privilégios herdados, dogmas religiosos e autoridades
arbitrárias. No entanto, ao lutar contra os preconceitos, o Iluminismo acabou
produzindo um novo preconceito: a crença de que seria possível pensar sem
pressupostos.
Mas existe realmente um pensamento sem pressupostos? Podemos
nos aproximar da realidade de modo absolutamente neutro? Podemos interpretar um
texto, uma pessoa ou um acontecimento sem já possuir alguma compreensão prévia?
A filosofia do século XX responderá negativamente.
Uma das contribuições decisivas para o tema foi a de
Heidegger ao mostrar que a compreensão não é uma atividade ocasional da
consciência. O homem não existe primeiro para compreender depois. Ele existe
compreendendo.
Heidegger chamou atenção para um aspecto frequentemente
esquecido: nunca começamos a compreender algo do zero. Quando nos aproximamos
de uma pessoa, de um texto ou de uma situação, já trazemos conosco
experiências, expectativas e modos de ver o mundo que influenciam nossa
compreensão.
Por isso, toda interpretação parte de uma compreensão
prévia. Antes mesmo de refletirmos conscientemente sobre alguma coisa, já nos
encontramos inseridos em um horizonte de significados que orienta nosso olhar.
Não chegamos ao mundo de mãos vazias. Nascemos numa língua
que não escolhemos e num tempo que não prevemos. Somos educados dentro de
valores que não criamos.
Recebemos uma herança histórica que nos precede. Vivemos
cercados por significados já constituídos.
Aquilo que chamamos de “minha opinião” frequentemente
repousa sobre pressupostos que começaram muito antes de nós.
Por isso, para Heidegger, a compreensão humana não parte de
um ponto zero. Toda interpretação já nasce dentro de um horizonte prévio de
sentido.
Posteriormente, foi Gadamer quem extraiu as consequências
hermenêuticas dessa descoberta. Em Verdade e Método, ele argumenta que o
Iluminismo tratou todo preconceito como algo necessariamente negativo. Contudo,
essa posição ignora um fato elementar: sem preconceitos, no sentido de
compreensões prévias, nenhuma compreensão seria possível.
Quando lemos um texto, aproximamo-nos dele com expectativas.
Quando ouvimos alguém, já possuímos referências anteriores. Quando
interpretamos um acontecimento, fazemos isso a partir de nossa história e de
nossa formação.
Não compreendemos apesar dos preconceitos. Compreendemos
através e por meio deles.
Isso não significa que todos os preconceitos sejam
verdadeiros ou desejáveis. Muitos são injustos, violentos e devem ser
superados. O ponto de Gadamer é outro: a tarefa da compreensão não consiste em
eliminar toda pré-compreensão, mas em torná-la consciente e submetê-la ao
diálogo.
A verdadeira compreensão ocorre quando nossas preconcepções
entram em contato com aquilo que buscamos compreender e podem, então, ser
confirmadas, corrigidas ou transformadas.
Talvez a conclusão mais desconcertante seja esta: não
estamos diante dos preconceitos como quem observa um objeto externo.
Estamos mergulhados neles!
Eles habitam nossa linguagem, nossa educação, nossa memória, nossas convicções socioculturais. Constituem o horizonte a partir do qual vemos o mundo.
O preconceito não começa quando discriminamos alguém. Ele
começa muito antes, na maneira como antecipamos sentidos, classificamos
experiências e interpretamos a realidade.
Por isso, o verdadeiro problema não é possuir preconceitos.
O verdadeiro problema é acreditar que não os possuímos. E,
pior, sem saber que os possuímos, fazer deles nossa régua de conduta pessoal,
social ou moral.
A maturidade intelectual talvez comece justamente quando
abandonamos a ilusão da neutralidade absoluta e passamos a investigar as preconcepções
e os preconceitos que orientam nosso olhar.
Somente então a compreensão deixa de ser repetição
automática do que já pensamos e se transforma em um encontro genuíno com aquilo
que ainda não compreendemos.
