terça-feira, 4 de agosto de 2026

Odisseia: da nostalgia do retorno em Homero à melancolia da existência em Nolan

 

Um novo questionamento sobre a existência ganha contornos de atualidade com a estreia recente do filme Odisseia no cinema. Na releitura do clássico de Homero, o diretor Christopher Nolan provoca uma indagação sobre o que seria 'retornar para casa' em um mundo hiperconectado tecnologicamente e fragmentado existencialmente.

As discussões em torno das obras - de Homero e de Nolan - mostram que a pergunta permanece aberta e pode mais uma vez ser visitada.


Fonte: Divulgação Universal Pictures


Odisseu costuma ser lembrado como o herói do retorno. Não por acaso, a palavra moderna "nostalgia" deriva da reunião dos termos gregos nóstos (retorno) e álgos (dor), designando, em sua origem, o sofrimento provocado pelo desejo de voltar para casa.

A Odisseia narra sua longa viagem de volta a Ítaca, onde o aguardam Penélope, Telêmaco e a vida interrompida pela guerra. Mais do que uma aventura, porém, sua travessia revela uma experiência fundamental da existência: a busca por uma morada que nunca se alcança plenamente. A nostalgia de Ítaca exprime o desejo de regressar à pátria, mas também inaugura uma pergunta que atravessará toda a tradição ocidental: onde o homem realmente habita?

Essa figura adquire novo significado em Dante. No Canto XXVI do Inferno, Odisseu renuncia ao repouso e persuade seus companheiros a uma última viagem: Considera a tua proveniência: / não foste feito para viver como um bruto, / mas para buscar a excelência e o conhecimento. O retorno deixa de constituir o horizonte de uma existência marcada pela perda e pela falta. O homem passa a definir-se pela inquietação positiva que o impele sempre para além de si mesmo.

Séculos depois, Kavafis desloca novamente o sentido da narrativa. Em seu poema Ítaca, convida o viajante a desejar que o caminho seja longo. A ilha permanece necessária, mas apenas porque coloca o homem a caminho. O verdadeiro acontecimento já não é a chegada, mas a transformação produzida pela própria travessia.

Essa transformação pode ser compreendida à luz da reflexão de Jean Starobinski. Em A tinta da melancolia, ele mostra que a melancolia não constitui uma realidade imutável, mas uma experiência cujos significados se transformam ao longo da história. A continuidade reside menos na permanência de um mesmo estado de alma do que na sucessão de diferentes interpretações da condição humana.

Sob essa perspectiva, seria anacrônico afirmar que o Odisseu homérico já é melancólico no sentido moderno. Mais fecundo é reconhecer que o nóstos, o desejo do retorno, constitui um dos antecedentes históricos daquilo que, séculos depois, a literatura e a filosofia compreenderão como melancolia.

Sob viés fenomenológico, essa errância não constitui um acidente da existência, mas uma de suas estruturas fundamentais. Em Heidegger, habitar não significa simplesmente ocupar um lugar ou possuir uma casa. Habitar é o modo como o homem se encontra no mundo, relacionando-se consigo mesmo, com os outros e com as coisas. No entanto, essa relação nunca lhe é dada de forma plenamente assegurada. Por isso, Heidegger afirma que a existência humana é originariamente marcada por um “não estar em casa” (Un-zuhause-sein). Não se trata da perda de uma pátria nem de um desenraizamento histórico, mas da condição própria do existir. O homem jamais coincide inteiramente consigo mesmo ou com o mundo em que vive. Sua existência permanece aberta, exposta às possibilidades e, por isso mesmo, nunca definitivamente instalada. É essa abertura originária que torna possível tanto a errância de Odisseu quanto seu incessante desejo de habitar.

É nesse ponto que a literatura – e o cinema – revela toda a sua força filosófica. Ela não se limita a ilustrar conceitos nem apenas antecipa aquilo que a filosofia formulará posteriormente. A literatura é um modo originário de manifestação da existência. Em suas narrativas, a existência mostra a si mesma antes de qualquer elaboração conceitual.

Por isso, Odisseu continua navegando através dos séculos. Sua viagem não representa apenas o destino de um herói grego, mas o modo como a existência humana se desvela em sua incessante busca por uma morada. A nostalgia do retorno transforma-se na melancolia da existência.

Torna-se visível, assim, uma estrutura fundamental do existir, a qual a filosofia procura compreender, mas que a literatura já havia deixado aparecer: o homem é originariamente errante; por isso, está sempre em busca do habitar.

Aqui, a diferença entre o poema e o filme: em Homero, Odisseu busca (retorna) ao habitar que lhe dá sentido; em Nolan, Odisseu habita na melancolia da errância.